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Endividamento das Famílias Bate Recorde — E Ninguém Está Surpreso

O comprometimento da renda das famílias brasileiras com dívidas chegou a 29,3% em maio. O número é alto, mas a história por trás dele é mais complexa do que parece.

Por Daniela Fonseca · 5 jul. 2025 · Atualizado em 6 jul. 2025

Quase 30% da renda das famílias brasileiras vai para pagar dívidas. É o maior nível já registrado pelo Banco Central desde que a série histórica começou, em 2005. O número assusta, mas precisa de contexto para ser entendido corretamente.

Primeiro, o que está por trás do crescimento do crédito. O Brasil passou por um período de expansão significativa do crédito consignado — especialmente para aposentados e servidores públicos — e do crédito para consumo via cartão de crédito. Ambos cresceram acima da inflação nos últimos dois anos.

O Cartão de Crédito Como Vilão

O cartão de crédito rotativo é o principal problema. A taxa média cobrada no rotativo chegou a 430% ao ano em maio — um número que, dito assim, parece absurdo, porque é. Nenhuma família consegue pagar uma dívida que cresce a esse ritmo. O resultado é que muitos brasileiros ficam presos num ciclo de rolagem de dívida que nunca se resolve.

O Banco Central tentou limitar o rotativo em 2024, mas a medida teve efeito limitado. As instituições financeiras simplesmente migraram parte dos encargos para outras modalidades. O problema estrutural — juros altos combinados com educação financeira baixa — continua sem solução.

Quem Está Mais Endividado

Os dados do Banco Central mostram que o endividamento é mais concentrado nas faixas de renda mais baixa. Famílias com renda de até dois salários mínimos comprometem, em média, 38% da renda com dívidas. Para famílias com renda acima de dez salários mínimos, esse número cai para 22%.

Isso não é coincidência. Famílias de menor renda têm menos acesso a crédito barato e mais dependência de modalidades caras como o cartão rotativo e o cheque especial. A desigualdade no mercado de crédito é um reflexo — e um amplificador — da desigualdade de renda.

O recorde de endividamento de 2025 não é uma surpresa para quem acompanha os dados. É o resultado previsível de uma combinação de juros altos, renda estagnada e expansão do crédito para segmentos vulneráveis. Mudar esse quadro exige mais do que uma circular do Banco Central.

Daniela Fonseca
Jornalista — Crédito e Finanças Pessoais

Jornalista com 12 anos de experiência em cobertura econômica. Especializada em crédito, consumo e finanças pessoais. Colabora com o Cais Econômico desde sua fundação.